| Teoria da Ruína |
O jogo é uma atividade universal praticada por quase todos
os segmentos das sociedades, salvo aquelas que, por motivo de doutrinação ética
ou moral, se negam a admiti-lo. Mesmo esses segmentos de exclusos participam dos
jogos montados pela sociedade, mas de forma indireta ou passiva, na maioria das
vezes nem sabem como isso acontece.
As pessoas que são atraídas para participarem dos
jogos têm a preocupação de conhecer as regras de cada jogo, mas nunca se
inquiriram sobre a essência da Teoria dos Jogos.
Joga-se pelo prazer de
jogar, mas estudar mesmo, que é o bom, isso não fazem.
Dessa forma, a maioria das pessoas se presta,
involuntariamente, para fortalecer os sistemas criados pelos diversos modelos de
jogos, desconhecendo os prejuízos que isso lhes possa causar.
É comum, quando o assunto é o jogo da Bolsa, ouvir
a pergunta:
Se na alta todos ganham,
quem perde?
Isso se deve ao desconhecimento total da teoria dos jogos.
Os tipos de jogos mais comuns são praticados no tempo instantâneo, o que acaba sendo o mesmo que se dizer serem os mesmos atemporais.
Nesses jogos fica muito
evidente que o ganho de um é exatamente a perda do outro.
Outros jogos, mais sofisticados, adquirem a dimensão
tempo ao se processarem por partidas seqüenciais, sendo os ganhos de cada
partida, acumulados. O inverso se diria para as perdas.
Esses comentários iniciais não são para se tecer
sobre a teoria dos jogos, mas para iniciarmos o estudo da Teoria da Ruína.
Vamos montar um jogo dito matematicamente honesto, isto é, onde a soma de todos os ganhos auferidos por uns sejam exatamente iguais às perdas dos demais participantes.
Claro que nosso modelo não tem custos de corretagem, taxa
ANA, imposto de renda sobre lucros, salários dos garçons que nos servem as
bebidas, aluguel de sala de jogos, ISS, ICMS, INSS, ou seja, absolutamente nada
que desequilibre a equação da soma dos ganhos ser igual a soma das perdas
entre todos os participantes.
Nosso modelo de jogo será por partidas até se chegar a um
resultado final, mas cada partida será do tipo cara ou coroa, de forma que em
cada partida haverá um ganhador e vários perdedores. Apesar de ser do tipo de
cara ou coroa, haverá um número múltiplo de participantes.
Consideremos, para fácil mentalização, que criamos uma
mesa redonda com 12 jogadores iniciais e que 11 desses participantes entrem no
jogo com 10 pedras fichas para apostas.
O 12º participante, chamado banqueiro do jogo, entra com
50 fichas de apostas.
Dessa forma somamos um total de 160 fichas no total da
mesa, que certamente será uma constante nesse jogo.
Cada participante só poderá jogar uma ficha de cada vez,
em cada rodada da partida.
Os 12 jogadores lançam, individualmente, dois dados e
somam os pontos obtidos por cada um. Quem fizer mais pontos nos dados, ganha a
mesa, isto é, 12 fichas.
A teoria estatística nos ensina que, em eventos aleatórios
e repetidos, a freqüência tende à probabilidade, quanto maior forem as repetições.
(Teorema de Gauss).
Fica claro, sem maiores demonstrações matemáticas aqui,
que a probabilidade de cada participante dessa mesa ganhar uma rodada, é de
1/12 avos.
Caso todos os participantes dessa mesa tivessem um número
muito elevado de fichas, podendo encarar uma freqüência azarada de perdas, sem
ir à lona, o jogo não teria fim. Isso porque, com as repetições e dentro da
teoria de Gauss, uma freqüência compensatória haveria de acontecer.
Mas nossos jogadores estão limitados a apenas 10 fichas
iniciais para cada um.
Nessas condições, havendo uma freqüência desastrada
para um dos participantes, digamos de 10 perdas consecutivas, este estará
eliminado do jogo, sem fichas.
Só que a mesa continuará com as 160 fichas iniciais.
Antes que um participante da mesa saia, a média é de 13,33
fichas por participante.
Após a saída de primeiro jogador, essa média subiu para 14,54
fichas por participante.
Continuando com as rodadas, outro participante poderá
seguir o mesmo caminho perdedor; afinal seu número de fichas não é elevado o
suficiente para encarar uma freqüência azarada.
A perda do 2º parceiro acarretará uma elevação da média
de fichas por participante ativo. Agora será de 16
fichas por participante.
Desse modelo de jogo podemos tirar algumas importantes
conclusões:
1 – a maior probabilidade de
um participante sair do jogo recai sobre os que têm menos fichas para jogar;
2 – eventualmente um
participante “com muita sorte” pode aumentar tanto o número de suas fichas
que ele assume o lugar do banqueiro;
3 – a conclusão mais importante
desse jogo é que, para a média de fichas por participantes aumentar na sua
acumulação, como um todo, faz-se necessário que as minorias sejam levadas
à ruína.
Isso mesmo. Caso o jogo desse sempre uma nova chance das
minorias permanecerem no jogo, essa minoria teria oportunidades de reaver pelo
menos suas fichas iniciais, liquidando com o modelo de acumulação programado
pelo sistema.
Para que o sistema tenha continuidade no seu processo de
acumulação, haverá sempre a necessidade de se substituir as vagas deixadas na
mesa do jogo por novos participantes, preferencialmente aqueles que entrem
com poucas fichas.
Creio que agora está ficando um pouco mais claro para os
leitores do LOBO o porquê que o Jogo da Bolsa “provoca”, de tempos em
tempos, crises que levam a longos e severos processos de baixa.
Isso gera uma freqüência de perdas que destroem as minorias, capitalizando todo o sistema, visto que as fichas, agora chamadas de ações, continuam as mesmas. Mas os pequenos entregam todas as suas fichas residuais, quando elas valem pouco, ou nada.
Da mesma forma, havendo necessidade de novamente se chamar
mais “novos jogadores”, preferencialmente pequenos e com poucas fichas, de
tempos em tempos o sistema cria um ambiente de “ganhos certos e garantidos”,
como se fosse uma sereia a cantar o caminho do Paraíso, um mundo perfeito em
que todos são ganhadores.
Evidentemente que o número de fichas, agora chamadas ações,
em curtos períodos de tempo permanecem as mesmas. Então, a entrada de novos
participantes induz à conclusão inevitável de que antigos participantes estão
mesmo é de saída.
Poderia, vez por outra, programar-se um aumento de fichas
para satisfazer a um número crescente de novos jogadores. Mas para isso se
viabilizar, as empresas teriam que fazer novas chamadas de capital, com emissão
de ações.
Mas notem que isso é considerado “concorrência
desleal” pelos banqueiros do jogo, pois os recursos aportados pelos
novos participantes iriam para as Empresas, não mais para comprar suas ações
acumuladas em banca.
Eles não gostam disso e então, nesses casos, aumentam a
oferta de fichas aos melhores preços, antes que seja muito tarde. Pressentem a
necessidade de se criar uma nova crise, de forma a se refrear a dita “concorrência
desleal” feita pelas Empresas.
Deprimindo-se o mercado, as Empresas saem do circuito de venda de ações novas.
Os pequenos participantes
saem da mesa do jogo e os banqueiros lentamente recolhem as fichas entregues por
qualquer preço.
ESSA É A TEORIA DA RUÍNA aplicável nas Bolsas.
UM MODELO DE ACUMULAÇÃO feito às custas dos outros.
AS CRISES E AS EUFORIAS não são frutos do acaso. Fazem
parte do modelo.
DESDE A MAIS REMOTA ANTIGUIDADE os povos pensavam mais em
guerrear seus vizinhos, tomando-lhes toda a sua produção, cultura, civilização
e até escravizando os derrotados, ao invés de se preocupar em aumento da
produtividade e da produção. Pouco
importava se suas atitudes implicavam na RUÍNA dos demais.
A Teoria da Ruína é muito mais antiga do que se possa imaginar.
Está arraigada no ser humano que considera esse processo de acumulação mais eficiente e rápido, ao contrário do pensamento do homem moderno que acredita no processo de acumulação pelos ganhos marginais crescentes, pelo aumento da eficiência do trabalho, pela incorporação à sociedade das novas descobertas e invenções, e pelo desenvolvimento de métodos e organizações para aumento de produtividade e eficiência do binômio Capital e Trabalho.
Imaginem agora que o que acontece se o jogo não seja
matematicamente honesto; que a soma dos ganhos dos vencedores seja menor que a
soma das perdas dos vencidos.
Isso é o que acontece no Jogo da Bolsa.
Os custos de intermediação, o Imposto de Renda sobre o
ganho dos vencedores, o CPMF e demais taxas e emolumentos são suficientes para
desequilibrar mais ainda a relação perdas/ganhos.
Que haja novatos, minoritários
e inexperientes para sustentar os custos do sistema.
Que haja vendedores a descoberto
e muitos, para levarem “córner”.
Que os jogadores comprem as opções,
que virem pó.
Esse é apenas o preâmbulo da Teoria da Ruína.
Sua mais importante conclusão é:
O IMPORTANTE É
NÃO PERDER.
LOBO (diretamente
de sua Toca) Em 12 de janeiro de
2.000
P.S.: Para que o jogo passe a
ser mais honesto, matematicamente falando, porque que a Receita Federal não
cria o Imposto de Renda Negativo?