A Influência da Economia Dualista Brasileira sobre a Estacionalidade do Mercado Bursátil
Primeiramente os caros colegas perguntarão o que significa Economia Dualista.
Diria que é a convivência simultânea, sob o mesmo universo monetário, do sistema produtivo industrial e de serviços ( Economia Urbana ) com a economia agrícola ( Economia Rural).
Imaginemos um pais de economia essencialmente industrial como, por exemplo, o Japão. Tirando-se retratos, ao longo dos 365 dias do ano, obtemos o mesmo resultado do fluxo monetário produtivo: fluxo contínuo de importação de matérias primas, parque de estoques de matérias primas, produtos em elaboração, estoque de produtos acabados e distribuição destes ao mercado consumidor ou exportação.
Neste quadro, o fluxo monetário e de capital, à taxa de juros fixa, é razoavelmente homogêneo e contínuo.
A todo momento havendo desembolso de compras de insumos e pagamento de salários e receitas oriundas dos produtos vendidos.
Neste tipo de economia, as políticas monetária e cambial, a oferta de capitais e as taxas de juros exercem significativo controle do processo produtivo.
Imaginemos agora um pais essencialmente agrícola como, por exemplo: Angola ou Moçambique. O retrato será desigual ao longo do ano. Dado momento, no início do plantio da safra, há concentração de recursos para compra de sementes e fertilizantes, pagamento de salários, compra de máquinas agrícolas, etc, etc.
A movimentação de recursos e capitais é intensa e o volume operacional depende mais das perspectivas sobre o valor de comercialização da safra do que a política da taxa de juros. A nível monetário, o grande limitante será a oferta de recursos, mais do que a própria taxa de juros.
Segue-se um período de hibernação natural para crescimento e desenvolvimento da safra. Nesta fase, a economia rural vive um processo de baixa atividade econômica, de subsistência e trabalhos quase que domésticos. O fluxo monetário rural fica extremamente diminuto.
Paço seguinte, segue a fase de colheita, transporte, ensacamento, armazenagem e silagem da safra.
Novamente o nível de atividade e o fluxo monetário se intensificam e a disponibilidade de recursos, para sua comercialização, passa a ser crucial, pois a safra é perecível e capitais investidos devem ser recuperados. Nesta fase, a disponibilidade de recursos será primordial e mais determinante do que a própria taxa de juros.
Finalmente chegamos a fase final, a de comercialização da safra, onde é gerado um significativo fluxo monetário realizado, que naturalmente flui para a economia urbana, gerando uma formidável demanda de produtos industrializados para consumo na área rural.
Nos países em que a economia mistura a atividade industrial e rural, como por exemplo a Argentina e o Brasil, em níveis significativos para as duas atividades, é o que chamamos de Economia Dualista.
Se um pais , com economia dualista, estiver disposto a fazer uma eficaz e autêntica política monetária, não inflacionária, há de administrar convenientemente ao longo do ano, a oferta de recursos urbano e rural, bem como a taxa de juros. Eventualmente, reconhecido um estado gravoso da safra, é natural que a política cambial seja mexida exatamente no período de comercialização da safra, sobre pena de se provocar um desastre na economia rural.
Para não ser deflagrado um surto inflacionario, necessário de faz que o total de recursos disponibilizados, por períodos, seja constante para o conjunto do país.
Para se evitar fortes mexidas na política cambial, necessário se faz uma política de juros diferenciada para a área urbana e rural, maior na primeira e, por consequência, subsidiada na segunda.
Isto posto, sendo tudo muito bem administrado pelas autoridades monetárias, os seguintes efeitos devem ser observados:
1 no período de preparo e plantação (outubro a dezembro) os recursos próprios dos agricultores, aliados aos créditos dados pelos fornecedores de insumos, suprem as necessidades sem maiores fluxos financeiros entre a área urbana e a rural. A disponibilização de recursos deveria ser farta e a juros subsidiados.
2 no período de colheita e comercialização da safra (maio a setembro) os recursos necessários são substanciais e indispensáveis (sob pena de perda da safra perecível). Os juros não precisam ser mais tão subsidiados, pois a safra será comercializada a mercado.
3 na fase da colheita e comercialização (inicio) haverá um natural adensamento monetário na área rural e, por consequência, para não ser inflacionário, uma diluição, ou falta de recursos, na área urbana.
Esta falta de recursos na área urbana é que gera a Estacionalidade Baixista no mercado Bursátil, começando discretamente em junho e tendo por ápice os meses de agosto e setembro. Há de se considerar que o Sistema Bursátil integra o conjunto da atividades urbanas.
4 após a comercialização da safra, os recursos e haveres gerados no sistema rural fluem naturalmente para o sistema urbano de economia de fluxo mais homogêneo. Fluem não somente pela eficiência de alocações do sistema bancário, como também pelo aumento da demanda de outros bens ( industriais ) e serviços necessários ao bem estar das populações rurais. Este novo quadro gera a Estacionalidade Altista no mercado Bursátil nos meses de dezembro e janeiro, principalmente.
Há trinta anos para trás esta influência era altamente significativa, dado o peso do produto rural na composição do PNB ( Produto Nacional Bruto ) do Brasil. Hoje em dia, esta influência é mais moderada, porém ainda bastante significativa como demonstramos:
Estima-se que a contribuição do produto rural esteja ao redor dos 20 a 25% do PNB sendo o complemento distribuídos nas atividades digamos de fluxo quase homogêneo ( comércio, serviços, indústria, etc. ). Admitamos, a bem da análise, que 50 % das atividades rurais estejam administradas pelo ciclo curto de produção ( hortifrutigranjeiros, pecuária leiteira, piscicultura silvicultura e outros ) de modo que seu fluxo monetário se assemelhe ao sistema produtivo urbano.
Nestas condições teremos que 87 % do PNB se processe em fluxo ao longo do ano que, dividido pelos 12 meses do ano, dá um quociente mensal igual a 7,25, enquanto que os 13 % restantes se processam bàsicamente em 3 meses, dando um quociente de 4,33 % ao mês.
Nestas condições, se nenhuma medida monetária compensatória for tomada nos meses de agosto, setembro e outubro, o quociente de atividade neste três meses, para o conjunto país, seria de 11,58 % ao mês que, comparado ao padrão de 7,25 % dos demais meses, significaria um incremento de 60% no nível geral de atividades. Este quadro gera uma inusitada demanda monetária cujas consequências seriam: aumento dos juros, pressão inflacionária ou carência de recursos na economia urbana, ou a combinação delas. Normalmente prevalece a carência de recursos na economia urbana e isto é que explica a tradicional fraqueza das Bolsas nos meses de agosto, setembro e outubro, sendo que agosto já foi apelidado do mês de desgosto para os investidores em ações. Para muitos é folclórico, para outros é misticismo e os restantes dizem ser superstição, mas para a maioria não passa de desconhecimento das verdadeiras causas que agora o LOBO revela.
Em 33 anos de mercado constatei quatro quebras de estacionalidade, todas elas ocasionadas por motivos afins. Duas foram ocasionadas por quebra violenta da safra ( secas agrícolas ocorridas nos idos da década de 80 ), quando o governo, exatamente para evitar uma queda do PNB brasileiro, injetou inusitado crédito urbano para expansão das outras atividades econômicas. As outras duas inversões derivaram do violento aumento do preço internacional do café, após geadas devastadoras ocorridas no Paraná.
VINCULAÇÃO HISTÓRICA
Bastaria a explicação monetária para relacionar causa e efeito. Contudo existe uma vinculação histórica, muito interessante, que reforça o evento da Estacionalidade Bursátil ocasionada pela dita Economia Dualista. E que até os idos de 1929 o Brasil era uma economia essencialmente agrícola.
Com a crise de 29 a nação acordou para a necessidade de diversificação de sua economia ( para reduzir a vulnerabilidade e fragilidade, face aos novos tempo). Isto é histórico e há diversos estudos mostrando como foi o processo de desenvolvimento do país. Aqui faço apenas a referência. O que importa ressaltar neste estudo é que o processo foi liderado pelos capitalista da época que eram exatamente os grandes produtores rurais e latifundiários. Este vinculo, apesar de estar parcialmente diluído, ainda existe: os maiores empresários urbanos também são grandes empreendedores rurais. Assim, evidentemente, na temporada da safra, suas preocupações ficam voltadas para os negócios rurais, onde um descuido pode custar caro demais. A safra é perecível. Neste processo destacamos o setor cafeeiro como o principal produto agrícola da década de 20 e o LOBO revelará, breve, estudo mostrando a Influência do Preço do Café nos Ciclos Anuais da Bolsa de Valores.
Este estudo se encerra nos aspectos bursátis imediatos, mas não exclui outras inalações de política econômica, tendências do Congresso na elaboração da legislação pertinente, crises políticas, etc.
Em 1963, por exemplo, houve uma violenta quebra da safra agrícola, a ponto do PNB ter decrescido, pela primeira vez na história econômica do país, em 1%. Este fato gerou uma crise de insegurança total no país, desestabilizou o Governo da época, criando as pré-condições para a revolução de março de 1964. A paixão política havida na ocasião esqueceu de valorizar este importante detalhe....
Faço, por alto, referência à queda da monarquia e à revolução de 30, como crises geradas pelo conflito da Estacionalidade Agrícola, apesar dos historiadores preferirem outras motivações como causas primárias explicativas.
P.S. Um pequeno esclarecimento sobre Estacionalidade usado no lugar de Sazonalidade.
Do Aurélio:
Estacionalidade: capacidade de produção agrícola conforme a estação ou época do ano em que se fez o plantio e a colheita.
Sazonalidade: relativo a sazão ou estação. Próprio de, ou que se verifica em uma sazão ou estação.
Resumindo: a mesma coisa. Só que, para o LOBO, a sazonalidade fica contida no ciclo anual, enquanto que a Estacionalidade pode conter ciclos decenais ou maiores. O período de tempo de um Governo, para mim, é uma Estacionalidade. Alguns ciclos primários de alta (ou baixa) nas Bolsas podem superar anos e definir uma Estacionalidade motivadora disto.
Lobo em 24/07/1998