| Os Leões estão Soltos - Parte I |
Aconteceu num Domingo, numa cidade distante.
Um senhor muito gordo, usando calças balofas, resolveu ir ao circo numa seção matinal. Foi há muito tempo, quando as arquibancadas eram montadas com tábuas sobre armação de ferro.
Não precisa dizer que a maioria dos espectadores era de crianças.
O dito senhor foi sentar justamente na junção de duas tábuas da arquibancada. Começou o espetáculo; alegria geral com muitos gritos da garotada.
Lá pelas tantas chegou a hora do espetáculo das feras.
Aconteceu que, por certa imprudência, montaram as grades de proteção sem fixá-las muito bem. Aí foi o desastre. Quando um dado leão se encostou na grade, desabou tudo e todas as feras ficaram livres e soltas.
Começou um pandemônio! As crianças começaram a gritar e se levantaram para sair em debandada.
Nisso, as tábuas desempenaram e prenderam os fundilhos do dito senhor, que ficou impossibilitado de se levantar e fugir.
Então o senhor, querendo demonstrar uma certa tranqüilidade, gritava para a garotada:
Senta garotada, senta meninos que os leões são mansos.
Esta história me veio à baila porque o momento é propício. Li nos jornais de fim de semana, pós Sexta-feira passada, a Sexta-feira dramática:
"Governantes, vários analistas e consultores financeiros dizem que a economia brasileira tem melhores condições de enfrentar um ataque especulativo do que em outubro do ano passado.
Dizem haver um nível de reservas internacionais maior (70 bi hoje, contra 62 bi em out/97). Dizem, ainda, que continua a entrada de investimentos estrangeiros diretos e falam sobre favoráveis expectativas de privatizações do setor de energia".
Agora vejam o que eles não dizem:
Que de outubro de 1997 para cá, só os juros devidos ( 42%, lembram?) sobre a dívida externa brasileira, produziu mais de 50 bilhões de aumento da própria divida. Então os créditos a sacar subiram 50 bilhões contra um aumento das reservas de apenas 8 bilhões.
Isto é desequilíbrio total
Como se numa guerra, enquanto o "poder de fogo" do Governo cresceu menos de 15%, o do adversário cresceu mais de 35%. Pior. O Patrimônio, estoques vendáveis brasileiros, hoje são menores do que os do ano passado ( menos Vale, Telebrás e outras menores ).
As expectativas favoráveis ? Ah ! sim, são só expectativas nossas (torcida), pois os atacantes estrategicamente suspenderiam o atual fluxo de entrada. Porquê ?
Porque é este mesmo o objetivo do ataque especulativo: comprar tudo mais baratinho depois. Então restaria uma perguntinha enganadora. Se assim parece ao Lobo, como explicar o interesse manifestado, até agora, com pagamento de ágio nas privatizações, inclusive da Telebrás ?
Aí a resposta é muito simples:
Preventivamente, para "facilitar" o processo de privatização, o Governo acabou com a correção monetária, inclusive nos contratos financeiros; para "acelerar" o mesmo processo de privatização, o próprio Governo financia os compradores, através do BNDES . Ouro sobre azul ou mel na sopa ?
Havendo uma crise cambial, o que está longe de ser uma profecia, os corajosos investidores recuperam, com lucro, os soberbos ágios pagos.
O que dói nisto tudo é não ser nada criativo.
Poderíamos ser compensados, se aprendendo uma novidade....
Depois, é claro, vivendo uma nova realidade cambial, veremos o Governo ajustar as tarifas públicas. Como não haverá a volta da correção monetária, para não estragar o negócio, outros nomes darão para o acontecido, pois o nosso léxico é pródigo e os homens são muito "criativos".
Por exemplo: "equalização das tarifas ao preço internacional para garantir a rentabilidade e recompor a capacidade das empresas para novos investimentos".
Serve este ? Pelo menos soa bonito...
Como o LOBO não é Leão, a Segunda parte continua amanhã...
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continuação