| Provas Circunstanciais |
Há muitos anos passados havia um juiz de nome Severo que era conhecido como o mão pesada. Não tinha contemplação, nem misericórdia. Todo réu, onde as provas circunstanciais lhe incriminavam, era impiedosamente lançado no calabouço.
Certa vez esse juiz entrou de férias e, ao voltar a trabalhar, mudou completamente seu enfoque e o teor de suas sentenças. Passou a usar a máxima de "na dúvida, pró réu". Por mais que as provas circunstanciais incriminassem o réu, ninguém mais ia para a cadeia por sentença desse juiz.
Todos os advogados se entreolhavam e ficavam surpresos com tão radical mudança de enfoque. Só que o juiz era muito reservado e fechado, não dando oportunidade de ninguém se atrever a lhe perguntar o que tinha acontecido.
Um dia, contudo, apareceu o Dr. Pacheco no Fórum, um velho advogado que tinha sido colega de turma do juiz Severo e lhe era íntimo. Os advogados mais jovens cercaram o Dr. Pacheco e lhe relataram o motivo de suas curiosidades. Somente o Dr. Pacheco poderia desvendar o mistério. Esse, curioso que nem uma porca, aquiesceu.
E assim caminharam juntos para a cantina do Tribunal.
Mas nestas minhas últimas férias recebi um convite de um primo que acabou de comprar uma fazenda na Vargem Grande. Não resisti ao desejo de passar uns dias na fazenda e fui com a Matilde que está com muita projeção lá no Fórum.
Lá, um dia, perdi o sono e acordei cedo. Eram 4:00 h da manhã. Resolvi ir ao estábulo tirar leite de vaca, outro sonho meu. Acendi as luzes do curral, apanhei um balde e caí no trabalho. Só que a vaquinha Florisbela era indócil. Com a pata esquerda derrubava o balde. Então apanhei uma corda e amarrei sua pata esquerda numa estaca. Aí ela derrubava o balde com a pata direita. Amarrei a direita também.
Sentei num tamborete e reiniciei o trabalho de ordenha. Não é que a Florisbela começou a me chicotear com o rabo, com tal violência, que o jeito foi amarrar sua cauda numa trava do curral.
Aí é que começou o meu problema.
Nesse momento eu tive vontade de urinar e foi exatamente quando a Matilde, em minha procura, entrou no curral e me deu o flagrante.
Até hoje eu tento provar à Matilde que eu estava apenas tirando o leite da vaca.
As provas circunstanciais indicavam outra situação e ela não me perdoou.
Decididamente esse exemplo serve para mostrar como as aparências enganam, não espelham as reais intenções do autor, da coisa ou do objeto.
É muito difícil se deixar levar e se julgar pelo que primeiro nos parece como provável.
O mercado, assim como o mundo em geral, é levado por atropelos e coincidências, camuflando e embaralhando os vetores formadores de tendências.
Um analista, para chegar a conclusões palpáveis, antes de tudo tem que ser isento.
Não pode fazer parte do próprio processo, sob pena do seu subjetivo influenciar suas conclusões. Muitos, naturalmente, sem se aperceber, partem das conclusões e procuram fundamentos, numa inversão do que realmente deveria ser seu comportamento.
O segundo atributo de um analista é ser competente, saber o que realmente deve analisar, expurgando os fatos irrelevantes e saber identificar o que é substância, e o que é acessório.
O terceiro pensamento de um analista é procurar a verdade, a informação correta, e testá-las ao máximo para certificar-se de que colheu provas concretas, e não se deixar induzir por provas circunstanciais.
A Lei tem que ser rigorosa na Demonstração Financeira das Empresas, punindo pesadamente a desinformação.
As empresas deveriam ser cobradas para prestar maiores e melhores informações sobre seus projetos de expansão e sobre as perspectivas de crescimento do mercado onde atuam.
Somente assim teremos a formação básica de um mercado de capitais sadio, pujante e crescente.
Essas premissas já foram atendidas nos países do Primeiro Mundo.
Então a pergunta:
porque tanto espanto com a pujança do mercado de capitais dessas nações?
Porque duvidar da saúde financeira deles?
O problema no nosso mercado, é nosso mesmo.
Falta legislação adequada, justa e eqüitativa.
Falta rigor nas análises dos nossos profissionais.
Falta desprendimento dos nossos empresários para informar melhor e corretamente.
Resumindo: falta seriedade por parte de todos os participantes responsáveis.
A única coisa certa e perfeitamente definida pela legislação brasileira é que o acionista minoritário é irresponsável.
Mas isso não dá o direito de se tratar os acionistas minoritários como idiotas e imbecis.
LOBO (diretamente de sua Toca) Em 19 de Julho de 1999
P.S.: O conceito da irresponsabilidade do acionista minoritário se prende à impossibilidade de sua participação direta na administração das empresas.
Os acionistas minoritários podem comparecer às Assembléias das Empresas e propor o que quiser.
Caso as propostas dos minoritários sejam aceitas pela Diretoria da Empresa, essa passa a ser a exclusiva responsável pelo que vier a acontecer de certo ou errado, não sendo o acionista minoritário imputável, civil ou criminalmente.
Para isso que a Diretoria é eleita e dela se espera que seja formada de profissionais.
Por isso mesmo os Diretores são regiamente pagos.
Enquanto isso, os acionistas minoritários ficam na dependência dos resultados das Empresas para auferirem os seus dividendos.