Antigamente

 

A história que vou contar é real e se passou com o LOBO, quando ainda era novato no mercado de capitais.

 

Certa vez o LOBO estudava uma dada Empresa cujas as ações eram negociadas no mercado. Os resultados esperados seriam crescentes, face aos bons contratos que dita empresa tinha fechado. Havia apenas dois problemas que inibiam a sua compra de imediato: 1 - o mercado como um todo estava fraco e com tendência de queda; 2 – a empresa não era muito badalada, isto é, não chegava a ser uma "blue chip".

Para um novato, um principiante, vinha a grande pergunta: compro ou não compro logo.

Havia um senhor muito antigo no mercado que operava na mesma Corretora que o LOBO estava operando. Esse senhor era considerado uma "fera" e, naquela época, muitos o chamavam de o "Rei da Bolsa", quer pela "bala" que ele girava, quer pelos seus extraordinários acertos.

Declino de dizer o nome deste senhor pois não cabe fazê-lo sem sua devida autorização.

Mas então havia um outro problema: dito senhor era muito assediado pelos ratos do mercado que viviam sondando sua opinião. Prudente e muito gozador esse senhor tripudiava muito os outros, dando muita distância. Só como exemplo: a líder do mercado na época era o Banco do Brasil (1968 a 1971). Claro que o "Rei" estava montado, mas ora vendia, ora comprava.

Um dia, para testá-lo, ao sair um balanço do BB, levaram-lhe uma cópia de primeira mão e perguntaram o que ele achava. Então ele pegou o balanço e olhou. Não disse nada. Insistiram. Deixa ver melhor, disse ele e virou o balanço de cabeça para baixo. Ah! Está muito bom mesmo.....

Nem podia ser diferente. Dito senhor não era profissional do mercado. Não era economista, nem contador. Não fazia gráficos e nem calculava índices nenhum. Não era do ramo mesmo. Simplesmente era de um extraordinário bom senso e fina sensibilidade para "ver" e sentir o mercado.

Então, o grande problema do LOBO seria se aproximar e conseguir pedir um conselho a um homem tão experiente. Corria o risco de ser tosquiado como todos os demais que tentavam uma aproximação. Corria o risco de ser mais um bobão.

Arrisquei uma aproximação. Pela forma como eu ia expondo minhas análises senti que prendi sua atenção. Na verdade eu não estava falando de um papel que fosse do seu interesse. Ele viu que eu estava querendo muito mais a opinião dele do que uma dica sobre o que comprar. Eu tinha um palpite do que comprar. Queria apenas um conselho de como operar o meu palpite.

 

Engenheirinho, começou ele a falar comigo. Senti logo pelo termo diminutivo a um jovem, sendo ele bastante idoso, que obtive a sua atenção.

 Eu lhe pergunto: se você ganhar 2.000% em um dia, é bom?

Seria fantástico, lhe respondi.

 Então eu lhe pergunto: se você ganhar os mesmos 2.000% em um mês, é bom?

Maravilhoso, continuei lhe respondendo.

 Então eu vou ser mais severo. Se você puder ganhar esses mesmos 2.000%, mas somente após um ano, ainda assim você ficaria satisfeito?

Claro, doutor. Poucos investimentos podem dar tão extraordinária rentabilidade em um ano. Em um ano? Ainda assim seria excelente.

Então eu posso lhe dar um conselho: não procure adivinhar a véspera da alta. Se você sente, ou sabe, que pode ganhar 2.000% de hoje até o tempo que você considere bom, comece a comprar logo. Se demorar, e a alta começar antes de você comprar, certamente você ficará rindo amarelo, torcendo para haver uma queda do papel para aquele preço que você deixou de comprar e, talvez, nunca mais você compre o papel a preço nenhum. A cada alta futura será uma amargura para você, nunca uma alegria. Você pode acabar no ridículo de começar a falar mal daquilo que você sabia que era bom.

Esse foi o melhor conselho de Bolsa que o LOBO recebeu, até hoje. Pensando bem, esse conselho não chega a ser inédito, mas era o que eu precisa naquele momento e valeu para sempre.

Claro que quando esse senhor ainda era garotinho, já havia muita gente ganhando muito, usando apenas o bom senso. Antigamente não havia gráficos, nem grafistas. Não havia essa de indicadores e índices cada dia mais sofisticados. As grandes fortunas criadas no passado foram feitas em cima do bom senso, ou de grandes roubalheiras, é claro. Mas nunca ouvi falar em fortunas criadas em cima de estocásticos, força relativa, momentum e outros. Esses são instrumentos usados por quem quer especular no curtíssimo prazo. Às vezes dá certo, outras não. Na realidade, a parafernália de índices e indicadores é tão variada que, procurando-se, sempre se acha "aquele" indicador que nos interessa.

Os maiores investidores/especuladores que eu conheci e convivi, quando ficavam determinados a se posicionar num dado papel, levavam alguns meses comprando, todo dia, qualquer que fosse os indicadores de curto prazo. Assim procedendo, conseguiam ganhar muito em cima de lotes grandes. Quem opera no curto consegue ganhar pouco em cima de "lotinhos", se ganhar. O mercado não tem liquidez suficiente para os grandes operadores girarem toda as sua posições no curto prazo, a toda hora. Então o jogo da "pesada" é o jogo do longo, não tenham dúvidas.

 

O LOBO achou oportuno fazer essa crônica porque ando notando um certo comportamento esquisito por parte de alguns participantes dos fóruns.

A pretexto de esclarecer, estão conseguindo fazer uma grande confusão na cabeça dos novatos, ora dizendo que o mercado está às vésperas de grandes altas, ora (os mesmos) recomendando vendas porque o mercado "tem" que cair para poder subir. Isso até pode acontecer a curto prazo, mas é uma loucura se dar um conselho deste quilate. Foge completamente análise do bom senso.

Antigamente se estudava lógica na escola. Hoje em dia os jovens vão direto para os computadores abrir enlatados de fórmulas, sem maiores análises críticas.

O LOBO, escrevendo sempre antes de acontecer, está impressionado como os jovens se esforçam em me acompanhar e me repetir. Apenas lembro que o LOBO fala uma vez só e não fica torrando a paciência dos seus leitores com repetições cansativas.

Em plena crise cambial o LOBO alertou, como conseqüência da máxi-desvalorização, para a possibilidade de termos os juros reais negativos, quando ninguém pensava nisso e não imaginavam que tal situação seria propulsora de um grande movimento de alta.

Agora vejo, com muito prazer, vários defensores da tese nos nossos fóruns. Só que eles se repetem muito, e isso não é bom. Dá a impressão que querem se convencer por repetição (decoreba?).

Quem repete muito dá a impressão de que não está assim tão seguro do que diz.

Depois o LOBO alertou para o grande O-C-O Pois bem, já está cheio de adeptos à figura. Só que eles veem o O-C-O onde está um tremendo W.

Antes vi um analista ver um tremendo W na BRDT onde havia mesmo era uma cunha cortada. Tudo bem. Nem todos são tão experiente assim. Mas são bem intencionados.

Alguns são tão bem intencionados que, pelo que vi após voltar de um fim de semana (onde sempre é bom se descansar), passaram de plantão nos fóruns, todo sábado e domingo, respondendo a perguntas sobre o O-C-O, de hora em hora.

 

Parecia até campanha cívica a favor do Mercado.

Achei fantástico tanto empenho. Melhor. Ainda convocava outros participantes a perguntarem mais sobre o dito O-C-O. Muito bacana mesmo. Agora estou aguardando os colaboradores que dissertarão sobre o "diamond" e a catapulta de alta.

Só peço que não fiquem repetindo muito, senão dá a impressão que não é bem assim, que falta convicção.

O LOBO, amante do bom senso, apaixonado pela lógica, amigo da verdade.

O LOBO não perde o senso da oportunidade, a hora de falar, a hora de calar.

O LOBO não se repete. Os outros são que repetem o LOBO.

Diretamente de sua Toca em 01/03/1999 às 08:57 horas.

P.S.: Alguns leitores da Toca tem inquirido o LOBO sobre o que acha do comportamento de certas pessoas que escrevem nos fóruns, repetindo-o.

Por amostragem, se alguns me escrevem indagando sobre isso, certamente a maioria dos meus leitores também já notaram.

Essa é uma situação muito delicada.

O LOBO, por princípio, não ataca ninguém. Só contra ataca.

Pois bem, quem me repete não está, em princípio, me atacando.

Não tenho por que contra atacar.

Seria uma questão de plágio?

Pelo benefício da dúvida procuro acreditar que tais senhores realmente pensem igual ao LOBO.

Reconheço, inclusive, que alguns conseguem, com sua redação, dar novas cores às teses do LOBO.

Mas, em hipótese alguma, como quis sugerir um leitor, se trata do próprio LOBO.

O LOBO não se repete. Os outros são que repetem o LOBO.

LOBO (Diretamente de sua Toca)